Audiobook – O Mito do Partido [100 Anos de Revolução Russa]

O Mito do Partido
Símbolo da Escravidão Moderna
Nota:
Este texto foi reunido e publicado pela primeira vez pela revista anarquista
“RUTA”, da Venezuela, em seu número 15 (setembro de 1973), e reeditado
por Ofícios Vários, integrante da FORA em Tucumán, na edição que usamos
para a tradução. Nesta compilação publicamos apenas a primeira parte, de
autoria da Federação de Estudantes Libertários. A segunda parte, de autoria
do grupo Orobon Fernandez, Espanha, pode ser encontrada na publicação
acimacitada, em espanhol. Setiver interesse, entreem contato!

A Revolução não é obra dos Partidos
As revoluções de tipo social não são efetuadas por “partidos”,
grupos ou equipes: acontecem como resultado de forças históricas e
contradições que põem em atividade amplos setores da população.
Traduzem-se não só – como afirma Trotsky – porque as “massas”
percebem como insuportável a sociedade existente, mas também
como conseqüência da tensão entre o atual e o possível, entre “o
que é” e “o que poderia ser”. A miséria por si só não produz
revoluções. A maior parte das vezes causa uma desmoralização inútil
ou, o que é pior, a luta privada e pessoal para sobreviver.
A Revolução Russa de 1917 gravita na consciência de todos como
um pesadelo, porque foi em grande parte a conseqüência de
“condições insuportáveis” de uma guerra imperialista devastadora.
Os sonhos nela contidos foram pulverizados por uma guerra civil
ainda mais sangrenta, pela fome e traição. O que emergiu da
revolução foi a ruína, não de uma velha sociedade, mas das
esperanças de construir uma nova. A Revolução Russa falhou
lamentavelmente ao substituir o czarismo pelo capitalismo de Estado.
Os bolcheviques foram as trágicas vítimas de sua ideologia e em
grande número pagaram com suas vidas durante a purgação dos
anos trinta. Buscar adquirir sabedoria profunda deste frustrado ensaio
revolucionário é ridículo. O que podemos aprender das revoluções do
passado é o que todas elas têm em comum, e suas profundas
limitações, se comparadas com as enormes possibilidades que agora
se abrem ante nós.
O traço mais surpreendente das revoluções passadas é que se
iniciaram espontaneamente. Tanto quando se examinam os
precedentes da Revolução Francesa de 1789, como quando se
estuda a de 1848, na Comuna de Paris, a revolução russa de 1905, a
queda do czarismo em 1917, a revolução húngara de 1956, ou a
greve geral francesa de 1968, as fases iniciais são geralmente
idênticas: um período de fermentação que se transforma
espontaneamente em uma insurreição popular. Que esta triunfe ou
não depende de sua resolução ou de se o Estado pode empregar
com eficácia sua força armada, ou seja, se as tropas podem ser
lançadas contra o povo.
O “partido glorioso”, lá aonde existe, vai quase invariavelmente
atrás dos acontecimentos. Em fevereiro de 1917 a organização
bolchevique de Petrogrado se opôs à declaração de greve,
precisamente no momento em que a revolução estava destinada a
expulsar o czar. Felizmente, os trabalhadores ignoraram a “direção”
bolchevique e proclamaram a greve em todas as partes. Nos
acontecimentos que se seguiram, ninguém se viu mais surpreendido
pela revolução que os partidos “revolucionários”, incluindo os
bolcheviques. O recorda o líder bolchevique Kayurov com estas
palavras: “Não houve em absoluto nenhuma diretriz do partido…
o comitê de Petrogrado havia sido detido e o representante do
Comitê Central, camarada Shliapnikov, era incapaz de dar
iniciativa alguma para o dia seguinte”. O que, por acaso, foi um
fato afortunado: antes da detenção do comitê de Petrogrado, a
avaliação que este fazia da situação e de seu papel nela era tão
deplorável, que, ao seguir os trabalhadores suas orientações, é
duvidoso que a revolução se tivesse produzido quando o fez.
França 1968
Poderíamos apresentar histórias idênticas nas revoluções que
precederam a de 1917 e nas que seguiram. Citaremos somente a
mais recente: a rebelião estudantil e a greve geral na França durante
maio/junho de 1968. Existe uma clara tendência de se esquecer que
cerca de uma dezena de partidos de tipo bolchevique, “altamente
centralizados”, existia em Paris neste momento. Raras vezes se
menciona que cada um destes grupos de “vanguarda” depreciava a
rebelião estudantil de 7 de maio, quando as lutas na rua se iniciaram
realmente. Os trotskistas da JCR foram uma notável exceção, se bem
que se limitaram a se deixar levar pelos acontecimentos, seguindo no
substancial as diretrizes do Movimento 22 de Março. Até 7 de maio,
todos os grupos maoístas criticaram a revolta estudantil como algo
periférico e sem importância. Os trotskistas da FER o consideraram
como “aventureiro” e trataram de abandonar as barricadas aos
estudantes em 10 de maio; o partido comunista, por suposto, teve um
papel de completa traição. Encontrava-se cativado pelo movimento
popular, apesar de estar muito longe de dirigir-lhe. É sarcástico que a
maioria destes grupos bolcheviques se deu a tarefa de manobrar,
sem pudor algum, nas assembléias estudantis de Sorbona, em um
esforço por controlá-las, e introduziram nelas elementos de discórdia
que acabaram por desmoralizar todo o conjunto. Depois, para
completar o sarcasmo, todos estes grupos bolcheviques se puseram
a tagarelar sobre a necessidade de uma “direção centralizada”,
quando o movimento entrou em colapso – um movimento que se
produziu muito apesar de suas diretrizes e, em ocasiões, em
oposição a elas.
As revoluções e rebeliões de alguma importância, não apenas
revelam uma fase esplendidamente anárquica como tendem também,
espontaneamente, a criar suas próprias formas de auto-governo
revolucionário. As seções parisienses de 1793-94 foram as mais
notáveis formas de auto-governo criadas por qualquer revolução
social na história. Uma forma mais conhecida: os conselhos, ou
“soviets” estabelecidos pelos trabalhadores de Petrogrado em 1905.
Apesar de menos democráticos que as seções, o conselho estava
destinado a aparecer anos mais tarde em algumas revoluções.
Entretanto, outra forma de auto-governo, ou autogestão
revolucionária, foi os comitês de fábrica estabelecidos pelos
anarquistas na Revolução Espanhola de 1936. Finalmente, as seções
reapareceram nas assembléias de estudantes e nos comitês de ação,
durante a revolta e a greve geral de Paris, em maio-junho de 1968.
Chegando neste ponto devemos perguntar que papel desempenha o
“partido revolucionário” em todos estes acontecimentos. Para
começar, temos visto que tende a ter uma função inibitória, de forma
alguma de “vanguarda”. Ali onde existe ou exerce influência tende a
refrear o fluxo dos acontecimentos, e não a “coordenar” as forças
revolucionárias. Isto não é casual. O partido está estruturado de
acordo com as linhas hierárquicas que refletem a mesma
sociedade a que pretende se opor. Apesar de suas pretensões
teóricas, é um organismo burguês, um Estado em miniatura, com um
aparato e um quadro cuja função é tomar o poder, não dissolvê-lo.
Acomodado no período pré-revolucionário, assimila todas as formas
técnicas e a mentalidade da burocracia. Seus membros estão
educados na obediência, nos conceitos pré-formados de um dogma
rígido, e ensinados a reverenciar a liderança. Esta liderança ou
função dirigente de partido, por sua vez, se baseia em costumes
nascidos no comando, na autoridade, na manipulação e hegemonia.
Esta situação piora quando o partido participa de eleições
parlamentares. Devido às exigências das campanhas eleitorais, o
partido acaba por se modelar totalmente de acordo com as formas
existentes e inclusive adquire os adereços externos do partido
eleitoral. A situação se deteriora ainda mais quando o partido adquire
grandes meios de propaganda, custosos quartéis generais,
numerosos periódicos controlados rigidamente pela cúpula, e um
“Aparato” pago; em resumo, uma burocracia com interesses criados.
A Hierarquia da autoridade
A medida que o partido cresce, a distância entre a direção e os
homens da base aumenta fatalmente. Os líderes não somente se
convertem em “personagens” como perdem contato com a situação
viva nas fileiras abaixo. Os grupos locais, que conhecem sua situação
de cada momento muito melhor que qualquer líder remoto, se vêem
obrigados a subordinar sua visão direta às diretrizes de cima.
Os dirigentes, que carecem de todo conhecimento direto dos
problemas locais, respondem rotineira e cautelosamente. Reclama-se
maior amplitude de visão e justifica-se maior “competência teórica”
própria, a competência do líder tende a diminuir quanto mais ascende
na hierarquia de autoridade. Quanto mais nos aproximamos do nível
onde se tomam as decisões “reais”, melhor observamos o caráter
conservador do processo que elabora as decisões, quanto mais
burocráticos e distantes são os fatores que entram em jogo tanto mais
as considerações de prestigio e o entrincheiramento substituem a
criação, a imaginação e a dedicação desinteressada aos objetivos
revolucionários.
O resultado é que o partido se faz menos eficiente de um ponto de
vista revolucionário, quanto mais busca a eficiência na hierarquia, nos
quadros, e na centralização. Mesmo que todos sigam o passo, as
ordens costumam ser em geral equivocadas, sobretudo quando os
acontecimentos começam a fluir rápido e a tomar rumos inesperados,
o que acontece em todas as revoluções. O partido só é eficiente em
um sentido: no de moldar a sociedade de acordo com sua própria
imagem hierárquica se a revolução tem êxito. Cria a burocracia, a
centralização e o Estado. Incita as condições sociais que
justificam este tipo de sociedade. Daí que, ao invés de
desaparecer progressivamente, o Estado controlado pelo
“partido glorioso”, preserva as condições essenciais de que
“necessita” a existência de um Estado, e de um partido para
“guardá-lo”.
Por outro lado, este tipo de partido é extremamente vulnerável em
tempos de repressão. A burguesia não tem senão que lançar mão
contra a direção para destruir todo o movimento. Com os líderes na
prisão ou desaparecidos, o partido fica paralisado. Os obedientes
aderidos não têm a quem obedecer e tendem a se dispersar. A
desmoralização sobrevém rapidamente. O partido se decompõe, não
apenas por sua atmosfera, como também pela escassez de recursos
internos.
As afirmações anteriores não são meras hipóteses ou juízos, mas o
resumo histórico de todos os partidos marxistas de massa do século
passado – os social-democratas, os comunistas, e o partido trotskista
de Ceilán, o único partido de massas em seu gênero. Reivindicar que
estes partidos deixaram de interpretar seriamente os princípios
marxistas não basta para impedir outra pergunta: Por que este fato se
deu pela primeira vez? O caso é que estes partidos degeneraram
porque estavam estruturados segundo os modelos burgueses.
Levavam o germe da degeneração implícito desde seu nascimento.
O partido bolchevique escapou a esta sorte entre 1904 e 1917 por
uma razão: foi uma organização ilegal durante a maior parte dos anos
que conduziram à revolução. O partido se via continuamente
destruído e reconstruído, de forma que, enquanto não tomou o poder,
não pode se cristalizar em uma máquina plenamente centralista,
burocrática e hierárquica. Por outro lado, se encontrava minado pelas
facções. Esta intensa atmosfera de facção persistiu ao longo de 1917,
até a guerra civil, apesar da direção do partido ser extremamente
conservadora, um traço que Lênin teve de combater naquele ano,
primeiro para voltar a orientar o Comitê Central contra o governo
Provisório (o famoso conflito sobre a tese de Abril), e logo para
empurrar aquele organismo à insurreição em outubro.
Em ambos os casos teve de ameaçar com demissão do Comitê
Central e levar seus pontos de vista “aos níveis mais baixos do
partido”.
Disputas entre as facções
Em 1918 as disputas entre facções adquiriram tal gravidade acerca
do tratado de Brest-Litovsk, que o partido bolchevique esteve a ponto
de cindir em dois partidos comunistas irreconciliáveis. Os grupos da
Oposição Bolchevique, assim como os democratas Centralistas e a
Oposição Operária, travaram duras lutas dentro do partido
bolchevique ao longo de 1919 e 20, sem falar dos movimentos de
oposição que se desenvolveram no Exército Vermelho devido à
tendência de Trotsky pela centralização. A completa centralização do
Partido Bolchevique – a realização da “unidade leninista”, como
seria denominada mais tarde – não se efetuou até 1921, quando
Lênin conseguiu persuadir no décimo congresso do partido da
necessidade de expulsar as facções. A esta altura, a maioria dos
guardas brancos havia sido esmagada e os intervencionistas haviam
retirado suas tropas da Rússia.
Não nos cansaremos de sublinhar que os bolcheviques tenderam a
centralizar de tal modo seu partido, que cada vez mais ficaram
isolados da classe operária. Esta relação raramente foi investigada
nos círculos bolcheviques dos últimos dias de Lênin, e este foi
suficientemente honesto para reconhecê-la. A Revolução Russa não
se limita à história do partido bolchevique e seus seguidores. Sob a
marca dos acontecimentos oficiais descritos pelos historiadores
soviéticos, há outros mais essenciais, como o movimento espontâneo
dos trabalhadores e camponeses revolucionários que posteriormente
se enfrentariam com violência a burocracia policialesca dos
bolcheviques. Ao cair o czarismo, em fevereiro de 1917, os
trabalhadores estabeleceram espontaneamente comitês em quase
todas as fábricas da Rússia e manifestaram um crescente interesse
em intervir na direção das empresas; em junho de 1917, na
conferência dos comitês de fábrica de toda a Rússia, celebrada em
Petrogrado, os trabalhadores pediram “a organização de um
estreito controle de trabalho sobre a produção e a distribuição”.
As conclusões desta conferência raras vezes são mencionadas nos
informes leninistas sobre a Revolução Russa, apesar de a própria
conferência ter se alinhado com os bolcheviques. Trotsky, que
descreve os comitês de fábrica como “a mais direta e genuína
representação do proletariado de todo o país”, toca apenas
superficialmente no tema nos três volumes de sua história da
revolução. Entretanto estes organismos espontâneos de auto-governo
eram tão importantes que Lênin, desconfiando conseguir o controle
sobre os conselhos naquele verão de 1917, estava disposto a
abandonar o lema “todo o poder para os soviets” para o de “todo
o poder para os comitês de fábrica”. Esta posição teria empurrado
os bolcheviques a uma atitude totalmente anarco-sindicalista, anda
que seja duvidoso que pudessem permanecer com ela muito tempo.
Fim do controle operário
Ao ocorrer a revolução de outubro, os comitês de fábrica se
apoderaram dos centros de trabalho, expulsando deles a burguesia e
estabelecendo um controle completo sobre o trabalho. Ao aceitar o
controle operário, o famoso decreto de Lênin de 14 de novembro não
fazia outra coisa que reconhecer um fato consumado; os
bolcheviques não se atreviam a se opor aos trabalhadores tão cedo,
mas começaram a solapar o poder dos comitês de fábrica. Em janeiro
de 1918, a dois escassos meses de “decretar” o controle operário,
os bolcheviques transferiram a administração das fábricas à
burocracia dos sindicatos. A história de que os bolcheviques
experimentaram pacientemente o controle operário até que este
demonstrou seu caráter ineficaz e caótico, é um mito. A “paciência”
dos bolcheviques só durou umas semanas. Não se limitaram a fim ao
controle direto dos trabalhadores algumas semanas depois do
decreto de novembro, como puseram fim também, sem demora, ao
controle sindical. Até a primavera de 1918, praticamente toda a
indústria russa se encontrava colocada sob formas burguesas de
administração. Lênin afirmou sumariamente que “a revolução exige,
precisamente no interesse do socialismo, que as massas devem
obedecer cegamente a única vontade dos dirigentes do processo
de trabalho”. O controle operário foi denunciado não só como
“caótico” e “impraticável”, mas também como “pequenoburguês”.
Osinsky, da Esquerda Comunista, denunciou amargamente todas
estas falsas declarações e advertiu o partido: “O socialismo e a
organização socialista deve ser estabelecida pelo próprio
proletário, ou não se estabelecerá de modo algum: em seu lugar
se instalará outra coisa: o capitalismo de Estado”. Em nome dos
“interesses do socialismo” o partido Bolchevique afastou o
proletariado de tudo aquilo que havia conquistado com seu esforço e
iniciativa. O partido não coordenou a revolução e nem a dirigiu:
simplesmente, a dominou. Primeiro o controle sindical, foram
substituídos por uma complexa hierarquia tão monstruosa como
qualquer outra dos tempos pré-revolucionários. Como demonstrariam
os anos seguintes, a profecia de Osinsky se converteria em amarga
realidade.
O problema de quem prevaleceria – o partido bolchevique ou as
massas russas – não se limitava de modo algum às fábricas. O
desenlace se deu tanto nas comarcas rurais como nas cidades. Uma
guerra camponesa espontânea havia encontrado respaldo no
movimento dos trabalhadores. Contrariamente ao afirmado pelos
informes leninistas oficiais, a rebelião agrária não limitou seus fins a
redistribuição da terra em lotes privados. Na Ucrânia, os camponeses
influenciados pelas milícias anarquistas de Nestor Makhno,
estabeleceram uma multidão de comunas rurais sob o lema
comunista de: “De cada um segundo suas forças; a cada um
segundo suas necessidades”. Em outros lugares, no norte e na
Ásia Soviética, alguns milhares destes organismos foram
estabelecidos em parte sob a iniciativa dos socialistas
revolucionários, e em grande medida como conseqüência do
tradicional impulso coletivista que emergia da comuna rural.
Importa pouco se estas comunas eram ou não numerosas, ou se
incluíam grande número de camponeses. O transcendental é que se
tratava de autênticos organismos populares, o núcleo de uma moral e
um espírito social muito superiores aos desumanizantes valores da
sociedade burguesa.
Os bolcheviques acolheram com reservas desde o primeiro
momento a estes organismos, e inclusive em ocasiões os
condenaram. Para Lênin, o preferido, a forma mais “socialista” de
empresa agrícola era a representada pela granja estatal: de modo
literal, uma fábrica agrícola em que o Estado possuía a terra, os
equipamentos de trabalho, e designava gerentes que arrendavam
camponeses por um salário base. Aparecem nestas atitudes com o
controle operário e as comunas agrícolas o espírito e a mentalidade
essencialmente burguesas que penetravam no partido bolchevique,
espírito e mentalidade que transcendiam não apenas de suas teorias,
como de seus métodos característicos organizacionais. Em
dezembro de 1918, Lênin lançou um ataque contra as comunas sob o
pretexto de que os camponeses eram “forçados” a entrar nelas. Na
verdade, pouca ou nenhuma coerção foi utilizada para organizar
aquelas formas comunistas de auto-governo. Assim, Robert G.
Wesson, que estudou detalhadamente as comunas soviéticas,
conclui: “aqueles que entraram nas comunas o fizeram em sua
grande maioria por vontade própria”. As comunas não foram
suprimidas, mas se limitou seu desenvolvimento, até que Stalin as
integrou na coletivização forçosa de finais dos anos vinte e princípios
dos trinta.
Em 1920 os bolcheviques haviam se isolado eles próprios da classe
operária e camponesa russa. A eliminação do controle operário, a
supressão da Makhnovitchina, a repressiva atmosfera do país, a
inflada burocracia, a esmagadora pobreza material herdada dos anos
de guerra civil, tudo isso tomado em seu conjunto, originou uma
profunda hostilidade para com o governo bolchevique. Com o fim das
hostilidades um novo movimento surgiu das profundezas da
sociedade russa reclamando uma “terceira revolução”, não uma
restauração do passado, mas o apressado desejo de levar a cabo os
objetivos da liberdade, tanto econômica como política, que havia
reunido as massas ao redor do programa bolchevique de 1917. O
novo movimento encontrou sua forma mais consciente no proletariado
de Petrogrado e nos marinheiros de Kronstadt. Também conseguiu
expressão no partido: o desenvolvimento de tendências anticentralistas e anarco-sindicalistas entre os bolcheviques até o ponto
de que um bloco de grupos de oposição, orientados ao ponto neste
sentido, alcançou 124 votos em uma conferência provincial de
Moscou, contra 154 partidários do Comitê Central.
A Rebelião de Kronstadt
Em 2 de março de 1921, os “marinheiros vermelhos” de
Kronstadt se sublevaram em rebelião aberta, levantando a bandeira
da “Terceira Revolução dos Trabalhadores”. O programa de
Kronstadt reclamava eleições livres para os soviets, liberdade de
expressão, liberdade para os anarquistas e os partidos socialistas de
Esquerda, sindicatos livres, e libertação de todos os presos
pertencentes aos partidos socialistas.
As histórias mais vergonhosas foram fabricadas pelos bolcheviques
para explicar esta rebelião, as quais seriam reconhecidas nos anos
posteriores como mentiras infames. A rebelião foi qualificada como
uma “conspiração de guardas brancos”, apesar de a maioria dos
membros do partido comunista de Kronstadt ter se unido aos
marinheiros – precisamente como comunistas – denunciando os
dirigentes do partido como traidores da revolução de outubro. Como
afirma Robert Vincent Daniels em seu estudo sobre os movimentos
bolcheviques de oposição: “os comunistas da época eram na
verdade tão pouco confiáveis… que o governo não tinha
confiança neles”.
O principal corpo de tropas empregado foram os chequistas
e os oficiais cadetes das escolas militares do Exército Vermelho. A
investida final de Kronstadt foi dirigida pelo Estado Maior do Partido
Comunista. Um amplo grupo dos delegados assistentes do décimo
Congresso do Partido foi enviado precipitadamente de Moscou com
este fim. Tão fraco era o regime internamente que a elite teve de
fazer este trabalho repugnante.
Ainda mais significativo que a rebelião de Kronstadt foi o movimento
grevista que se desenvolveu entre os trabalhadores de Petrogrado,
um movimento que desencadeou o levante dos marinheiros. As
histórias leninistas não contam este crítico e importante
acontecimento. As primeiras greves estouraram na fábrica de

Troubotchine em 23 de fevereiro de 1921. Em poucos dias o
movimento se propagou de uma fábrica a outra, até que no dia 2 de
fevereiro foram à greve os famosos oficinas de Putilov, “o crisol da
revolução”. Os trabalhadores expressaram não só reivindicações
econômicas, como também claras exigências políticas, adiantando-se
às que reclamariam poucos dias depois os marinheiros de Kronstadt.
Em 24 de fevereiro os bolcheviques declararam o “estado de sítio”
em Petrogrado e detiveram os líderes operários, reprimindo as
manifestações destes com os oficiais cadetes. O fato é que os
bolcheviques fizeram algo mais que reprimir um “motim de
marinheiros”: esmagaram com a força armada a própria classe
trabalhadora. É neste momento que Lênin reclamou a extirpação das
facções no Partido Comunista russo. A centralização do partido foi
agora completada, e o caminho estava preparado para Stalin.
Temos discutido estes acontecimentos porque conduzem à
conclusão que nossas últimas fornadas de marxistas-leninistas
querem iludir: o Partido Bolchevique alcançou seu grau máximo de
centralização nos dias de Lênin, não para levar a cabo uma
revolução ou para suprimir o movimento contra-revolucionário
da Guarda Branca, mas para levar a cabo uma contra-revolução
própria contra as mesmas forças que pretendiam representar. As
facções foram proibidas e se criou um partido monolítico, não para
evitar uma “restauração capitalista”, mas para conter o movimento
das massas operárias em direção a democracia soviética e a
liberdade social. O Lênin de 1921 se opôs ao Lênin de outubro de
1917.
Daqui por diante Lênin flutuou. Este homem, que mais que nenhum
outro, tratou de basear os problemas de seu partido nas contradições
sociais, encontrou a si próprio tentando na última hora parar a
burocratização criada por ele mesmo. Não há nada mais patético e
trágico que o Lênin dos últimos anos. Paralisado por um corpo
simplista de fórmulas marxistas, não lhe ocorreram melhores
contramedidas que as de tipo organizacional. Propõe a Inspeção de
Operários e Camponeses para corrigir as deformações burocráticas
no partido e no Estado, e aquela inspeção caiu nas mãos de Stalin,
que, com pleno direito, a levou a seu maior esplendor burocrático.
Lênin sugeriu depois a redução da Inspeção de Operários e
Camponeses e sua absorção na Comissão de Controle. Defendeu do
mesmo modo a ampliação do Comitê Central. Estas são as soluções:
ampliar este organismo, absorver este naquele, este terceiro
organismo se modifica ou se substitui por outro. Este extraordinário
ballet de formas organizacionais continua crescendo até sua morte,
como se o problema pudesse ser resolvido por meios
organizacionais. Como afirma Mosche Lewin, um admirador de Lênin:
O líder bolchevique “tratava os problemas de governo como um
executivo de mente rigidamente ‘leninista’. Não aplicava
métodos de análise social ao governo e se contentava em
entendê-lo simplesmente em termos de métodos organizacionais
ou técnicos”.
Os meios substituem os fins
Se é certo que nas revoluções burguesas “a fraseologia modifica
o conteúdo”, na revolução bolchevique as formas substituem o
conteúdo. Os soviets substituíram os trabalhadores e seus comitês de
fábrica, o Partido substituiu os soviets, o comitê central substituiu o
Partido e o Birô Político o Comitê Central. Em resumo, os meios
substituíram os fins. Esta incrível substituição do conteúdo pelas
formas é um dos traços mais característicos do marxismo-leninismo.
Na França, durante os acontecimentos de maio-junho de 1968, todas
as organizações bolcheviques se prepararam para destruir a
assembléia estudantil de Sorbona, para aumentar sua influência e
recrutar adeptos. Sua principal preocupação não se referia a
revolução ou as autênticas formas sociais criadas pelos estudantes,
mas ao crescimento de seus próprios partidos. Nos Estados Unidos
ocorreu algo assim e uma situação semelhante se dá entre os grupos
estudantis.
Somente uma força poderia se opor ao crescimento da burocracia
na Rússia: uma força social. Se o proletariado e o campesinato
russos tivessem conseguido desenvolver o campo na autogestão
através de comitês de fábrica, comunas rurais e soviets livres, a
história do país poderia ter dado uma reviravolta radical. Não há
dúvida de que o fracasso da revolução socialista na Europa depois da
Primeira Guerra Mundial levou a um isolamento da revolução na
Rússia. A pobreza material da Rússia, junto com a pressão do mundo
capitalista circundante ia claramente contra o desenvolvimento de
uma sólida sociedade libertária, realmente socialista. Mas de modo
algum era necessário que a Rússia tivesse que se desenvolver de
acordo com as linhas do capitalismo estatal. Contrariando as
previsões de Trotsky e Lênin, a revolução foi destruída por forças
internas, não pela invasão dos exércitos estrangeiros. Se o
Movimento, surgindo de baixo, tivesse continuado na linha dos
primitivos objetivos da revolução, em 1917, uma estrutura social de
diversas faces poderia ter se desenvolvido sobre a base do controle
operário da indústria, e uma livre economia inspirada pelos
camponeses, e no contraste vivo de idéias, programas e grupos
políticos. Enfim, a Rússia não se teria visto aprisionada entre as
correntes do totalitarismo, e Stalin não teria envenenado o movimento
revolucionário, preparando o caminho para o fascismo e a Segunda
Guerra Mundial.
O desenvolvimento do partido bolchevique fazia presumir estas
conseqüências, deixando de lado as intenções de Lênin e Trotsky. Ao
destruir o poder dos comitês de fábrica na indústria, ao esmagar o
movimento makhnovista, aos operários de Petrogrado, aos
marinheiros de Kronstadt, os bolcheviques garantiam praticamente o
triunfo da burocracia russa sobre a sociedade russa. O partido
centralizado – uma instituição completamente burguesa – se
converteu no refúgio da contra-revolução em suas formas mais
sinistras. Ou seja, a contra-revolução disfarçada, implícita na própria
bandeira e na terminologia de Marx. Finalmente, o que os
bolcheviques suprimiram em 1921 não era uma “ideologia” ou uma
“conspiração das guardas brancas”, mas uma luta elementar do
povo russo para libertar-se de suas correntes e assumir o controle
sobre seu destino. Para a Rússia isto significou o pesadelo da
ditadura de Stalin: para a geração dos anos trinta significa o horror do
fascismo e a traição dos partidos comunistas na Europa e nos
Estados Unidos.

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História das ideias e dos movimentos anarquistas – Vol. 1 – Introdução e prólogo – Part 1
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Historia das Ideias e dos movimentos anarquistas – Cap.01 – A árvore Genealógica – Parte 1
30:22

Historia das Ideias e dos movimentos anarquistas – Cap.01 – A árvore Genealógica – Parte 2
26:18

Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 2 – Part 1
28:02

Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 2 – Part 2
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Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 2 – Part 3
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