Espertirina Vai Falar! – O que é Autogestão?

Olá, seus anarquistazinhos. Não me segura que eu vou falar! E o assunto de hoje é autogestão. Oque diabo é isso mesmo?

Bem, da maneira mais simples possível, é uma forma de gerenciar e executar diretamente o que lhe diz respeito.

Como se diz auto, então siginifica que o ato de gerenciar e o de executar estão juntos e são feitos pela mesma pessoa em regime de democracia direta.

Assim não tem chefe, diretor, gerente, patrão, presidente, agente estatais ou qualquer equivalente.

Não há os que só pensam e os que só fazem, ou os que mandam e os que obedecem. Quem manda é a necessidade coletiva.

Onde se precise, é necessário discutir, organizar, racionalizar sobre a situação com todos para todos, sem intermediários.

A autogestão não pode ser confundida com controle operário, que mantém a hierarquia e o controle externo do organismo
(ou da fábrica) a algum organismo ou instância superior (como um partido político por exemplo).

Não deve ser confundida com qualquer forma de poder associado ao Estado ou “ditadura do proletáriado”.

O uso de intermediários descaracteriza uma autogestão, porque não é direto e uma autogestão é ação direta e consenso geral.

Essa forma alternativa de gestão, vem para acabar com algumas barbaridades que o capitalismo faz com a natureza, explorando-a frenéticamente;
acabar com o exercito de reserva e o desemprego e acabar com a produção voltada para o lucro;
inclusive de uma minoria dominante, onde deveria ser voltada para o bem-estar da maioria oprimida.

A autogestão, no sentido que propomos, significa o controle dos indivíduos sobre sua atividade produtiva e a colocação dos recursos materiais e dos meios de produção
a serviço da satisfação das necessidades sociais e a substituição do Estado por organizações de indivíduos livremente associados.

Veremos isso melhor em um vídeo sobre o poder popular.

São exemplos de cooperativas autogestionárias em outros países:

A famosa cerâmica Zanon, da Argentina, A editora anarquista AK Press, dos Estados Unidos e A corporação Mondragón, do País Vasco, que é a sétima maior corporação da Espanha.

Mas, e se nem sempre tivermos consenso sobre uma ação? Pelas graças da bioncê, ainda bem né não?
Já que é importante que isso aconteça, pois são das discussões e debates que chegamos a um denominador comum.

Essa prática só se aperfeiçoa com o uso.
O seu não uso faz com que fique cada vez mais difícil aceitar opiniões divergentes e a prática de consenso se torne ineficaz.

E não confunda! Trabalhar com consenso não é abrir mão de seus ideais, porque iria contra tudo que lutamos.
Autogestão é direta, é participativa, é consenso de ações!

Isso só se aprende com ação, não tem outra escola, é cada um assumir a responsabilidade de seus atos em prol da transformação social.

Assim desconfie quando ouvir ou ler autogestão, verifique se o partidos, os capitalistas, as igrejas não estão com cadeira cativa, manipulando a gestão.

Fácil de identificar, geralmente só assumem compromissos com cartas marcadas ou não assumem sem passar por seus superiores.

Isso não é autogestão, é uma ilusão de gerenciamento coletivo, mas controlado por interesses estranhos ao grupo.

Acham que somos burros, incapazes; não acreditam que as pessoas possam se autogerir sem sua magna presença.

Costumam dizer “Vamos consultar fulanos, sicranos ou pedir apoio ao comitê X do partido Y!”

Se é autogestão, quem sabe é quem participa sempre, está lá para decidir e executar o que se assume, igualmente entre todos.
Mas se um não sabe como faz mirian? Aprende! Ninguém nasceu sabendo!

É uma oportunidade de aprender, e nunca é tarde para isso.

Nós, como anarquistas entendemos que aprender é nossa necessidade mais importante, sem ela, nada somos, além de uma massa de manobra, ao sabor do vento dos aproveitadores.
Aprendamos sempre!

Como costumo dizer e hoje mais do que nunca, muita tesão e autogestão!

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Espertirina Vai Falar! O que é Ação Direta ?

Olá seus anarquistazinho baderneiros! Esse é o quadro “Espertirina vai falar !” e hoje será sobre ação direta.
Ação direta de maneira mais simples possível, significa uma ação exercida pelos próprios interessados. Entendeu gato?
É uma manifestação consciente da nossa vontade de classe oprimida,
sem a alienação ou abdicação da minha responsabilidade para alguém.
Por isso vai de contra a ideia de que os oprimidos são massas ignorantes
que precisam de uma vanguarda, de alguns sábios intelectuais dirigentes,
para pensar por eles, expressada nos partidos, igrejas e organizações autoritárias.
Nossas ações são feitas de forma independente, sem vincular-nos nem submeter-nos a qualquer partido político,
governo, empresa, instituição religiosa e eticétera. É uma oposição a meios indiretos,
tais como a eleição de representantes políticos, que prometem soluções para uma data posterior, ou o recurso ao sistema jurídico.
Para agir, não precisamos esperar autorização de quem quer que seja. Mas a vezes é preciso conter um pouco este impulso,
para conseguir uma ação direta em conjunto, mais ampla, por meio da autogestão.
Ação direta é uma ação autônoma, ou seja, garante a autonomia coletiva que os individuos consensuaram.
Todo ato de ação direta é uma tentativa de restituir a capacidade de decisão que deveria ser sempre nossa e não
de nenhum dominador, seja ele um politico, um dirigente, um pastor, um racista, um machista e assim vai querido.
Essa ação, pode ter ou não, o uso de violência revolucionária,
depende das circunstâncias, mas nunca se importa com a legalidade burguesa,
pois para gente ela não é legitima.
O sistema de democracia representativa hierarquizado e suas leis,
só servem para tentar nos calar, nos oprimir na esperança de perpetuar as desigualdades
e a dominação burguesa dessa sociedade capitalista.
Exemplos de ações diretas que nós oprimidos podemos tirar de fazer são.
Greves, boicotes, ocupações dos locais de trabalho ou estudo. trabalho lento de propósito. bloqueio de ruas e estradas
e sabotagens.
Em Campinas, Brasil, em janeiro de 2000. Um paraplégico,
cansado de ter seus pedidos ignorados pela prefeitura, removeu os obstáculos e degraus que impediam a passagem de sua cadeira de rodas a marteladas.
A Sea Shepherd também é um exemplo de ação direta nos dias de hoje sabotando, boicotando e atrapalhando a caça de baleias,
e por isso sendo considerada por alguns como organização “Eco-terrorista”.
Sem falar que todo escracho feito contra machistas, homofóbicos e fascistas, são ótimos exemplos. Nunca culpabilize a vítima por suas ações diretas,
não preciso falar que a culpa nunca é da vitima! beijos, sai fora.
Para lacrar com tudo,além disso, a ação direta é muito mais que um método de ação.
Ela é uma ferramenta pedagógica que impulsiona a reapropriação do poder de agir e decidir sobre nossos próprios destinos.
Restabelece laços de apoio mútuo e solidariedade tão essenciais entre os protagonistas de um novo mundo que está por vir.
Então é isso.
Se inscreve e compartilha compas.
Muita tesão e autogestão.

Audiobook – História das ideias e dos movimentos anarquistas – Vol. 1

Playslist:

História das ideias e dos movimentos anarquistas – Vol. 1 – Introdução e prólogo – Part 1
19:00

História das Ideias e dos Movimentos Anarquistas – Vol.1 – Introdução e Prólogo – Part 2
39:48

Historia das Ideias e dos movimentos anarquistas – Cap.01 – A árvore Genealógica – Parte 1
30:22

Historia das Ideias e dos movimentos anarquistas – Cap.01 – A árvore Genealógica – Parte 2
26:18

Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 2 – Part 1
28:02

Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 2 – Part 2
49:15

Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 2 – Part 3
11:48

Audiobook – Historia das ideias e dos movimentos anarquistas – Cap. 3 – Inteiro
33:55

Para baixar o livro em pdf e leitor online:

historia-das-ideias-e-movimentos-anarquistas-vol-1-woodcock

Espertirina Baderneira FAQ #01 – Libertação Animal

Deixe-me você também uma pergunta, que eu estarei respondendo no próximo FAQ!

Essa primeira rodada de perguntas quem mandou foi o canal Animadruga, confiram lá o canal do companheiro.

1- Se nós podemos viver vidas felizes, saudáveis e completas, sem comer os animais, então por que comer animais?

Cultura capitalista enraizada! Assim como não vamos acabar por completo com o machismo, o racismo e a homofobia de uma hora pra outra; A opressão humana aos animais também não acabará. Gerações e gerações nasceram aprendendo que deviam comer carne, porque até um determinado momento era tática de sobrevivência. Porém, defendendo o principio anarquista da coerência entre meios e os fins, assim como não vamos destruir o patriarcado por meios machistas, conseguir o fim do estado por meio do estado, não conseguiremos a libertação animal comendo carne! Comecemos de já o mundo que queremos amanhã!

2- Por que as pessoas pensam que os animais não devem ter direito?

O ocidente é narcisista, seus deuses não são parecidos com o coletivo, a natureza, com cabeça de elefante ou energia da terra; eles são parecidos com o próprio homem e até por vezes vinham na terra se misturar entre nós. O homem nesse sentido era especial, criado imagem e semelhança ao pai todo-poderoso e incumbido de nomear e dominar os outros animais.

Pra quem viu meu vídeo sobre a dúvida, percebeu que a vida significa mudança, e que as coisas são mais efêmeras, mais relativas, pois comparados ao universo somos um grãozinho de poeira. Não somos tão especiais assim como nosso ego quer que sejamos.
Não somos donos desse mundo, compartilhamos ele, e por isso esse mundo é propriedade comum de todos os seres vivos. Todos esses seres devem ter direitos sobre seu mundo.

3- Que característica um ser deve possuir para ser merecedor de direito no seu entendimento?

Uma sociedade anarquista é contra todo tipo de opressão! Toda vida e toda não vida merece seu equilíbrio. Dialeticamente o transformador e o transformado formam uma via de mão dupla, assim é dever ético viver uma vida se desconstruindo da melhor forma, na tentativa de vive-la sem opressões. Sabemos que é um longo caminho, mas já estamos trilhando-o.

Deixo aqui a indicação de leitura da “Carta ao mundo livre“;

4- Que critérios essa sociedade estabeleceu para escolher os animais que amam e os animais que vão comer?

Os animais fofos, que construíram uma representação ao lado dos seres humanos como animais domésticos, possuem laços afetivos mais próximos no imaginário da sociedade, o que provoca solidariedade e compaixão.

Outros animais foram desentimentalizados para extrair suas carnes como se extrai uma maçã da árvore.

5- Respeitar os animais deve ser algo moralmente opcional ou moralmente obrigatório? Você imporia o respeito aos animais ou permitiria o abuso de animais?

Somos contra qualquer tipo de moral, pois toda moral é imposta de cima pra baixo. Construímos juntos uma ética de baixo para cima, portanto seria “eticamente opcional”. Não podemos obrigar as pessoas a serem veganas, nem na sociedade atual, nem num sociedade anarquista.

Não podemos impor o respeito aos animais e nem permitir o abuso deles, temos que pensar para além dessa duas alternativas. Destruir as bases dessa sociedade doentia que geram estruturalmente e culturalmente as opressões aos animais e construir as bases de uma nova sociedade, que terá o respeito aos animais como consenso é o primeiro caminho.

6- Você teria coragem de levar seu filho para visitar o abatedouro de sua cidade ou preferiria o manter na ignorância?

Teria coragem de leva-la (o) dependendo da idade e se ela (e) manifestasse interesse. A ignorância nunca é uma benção!

7- Uma pessoa que faz sexo com um animal sem o consentimento do animal deveria ser presa?

Não se pode falar em consentimento vindo de um animal, assim como não se pode falar de consentimento vindo de uma criança. Isso é opressão e isso é estupro! Ninguém é livre pra oprimir ninguém, não defendemos essa liberdade individual, pois como seres coletivos, só há liberdade quando coletiva.

Essa pessoa requer cuidados médicos, na tentativa de reinseri-la na sociedade. Como anarquistas somos contra as prisões na sociedade atual e algumas medidas devem ser tiradas em coletivo numa sociedade revolucionaria.

8- Uma pessoa que come um animal sem o consentimento do animal deveria ser presa?

Acho que não. Não há consentimento de uma opressão. Toda opressão é domínio, portanto não há um:”tá bom, pode me comer.” k k k

Porém se o coletivo tivesse decidido em discussão de base num federalismo libertário que não poderia e o individuo comesse assim mesmo seria decidido também em coletivo alguma solução.
Deixo aqui a sugestão de leitura do livro “As prisões” de Kropotkin.

9- A partir de que momento um gosto é passível de ser criticado?

Todo gosto é passível de ser criticado, nada é ortodoxo, nada é absoluto como pregam as doutrinas.

10- Culturas tradicionais como touradas, rinhas, circos com animais, farra do boi, vaquejadas, rodeios, foie gras (figado de ganso), andam sendo proibidas por lei em vários países. Impor o fim de tais praticas é um avanço ou regresso?

Como na descriminalização da maconha, acreditamos no auto-cultivo, na auto organização dos espaços e somos contra a centralização da luta, por meio do campo legalista, tributário, ou seja, por meio do estado. Portanto arrancar conquista de baixo pra cima, por meio da luta, são avanços, mas temos que sempre ter a perspectiva revolucionaria em mente para não cairmos no reformismo quando sabemos que o problema é profundo.

Espertirina canta Raul – Não Vote! Lutar, Criar, Poder Popular!

Lá vou eu de novo
Um tanto assustado
Com Ali-Baba
E os quarenta ladrões
Já não querem nada
Com a pátria amada
E cada dia mais
Enchendo os meus botões…

Lá vou eu de novo
Brasileiro, brasileiro nato
Se eu não morro eu mato
Essa desnutrição
Minha teimosia
Braba de guerreiro
É que me faz o primeiro
Dessa procissão…

Fecha a porta! Abre a porta!
Abre-te Sésamo
Fecha a Porta! Abre a porta!
Eu disse:
Abre-te Sésamo…

Isso aí!
E vamos nós de novo
Vamo na gangorra
No meio da zorra desse
Desse vai-e-vem
É tudo mentira
Quem vai nessa pira
Atrás do tesouro
De Ali-bem-bem…

É que lá vou eu de novo
Brasileiro nato
Se eu não morro eu mato
Essa desnutrição
A minha teimosia
Braba de guerreiro
É que me faz o primeiro
Dessa procissão…

Fecha a Porta! Abre a porta!
Abre-te Sésamo
Fecha a Porta! Abre a porta!
Abre-te Sésamo
Fecha a Porta! Abre a porta!
Eu disse:
Abre-te Sésamo
Hêêêêi!
Abre a porta!
Eu disse:
Abre-te Sésamo…

Lindo…. minha voz perfeita….. Arrazei….. agora tchau….

Viva Raul e não vote!….. Lutar, criar, poder popular!

[Memória] Chamada para a marcha Antifa 2016

Uma onda de intolerância vem ganhando força nos últimos anos.
A disputa cega de partidos pelo poder reflete o que existe de pior em extremos da sociedade: o fascismo do capitalismo.

Mas que porra é esse fascismo? Da onde que isso existe sua louca?  Você pode me perguntar.

O fascismo tá, quando o povo pobre é atacado, os trabalhadores e trabalhadoras, os estudantes, as mulheres, os lutadores e lutadoras do nosso dia-a-dia em todas as esferas como agora. Os Movimentos sociais estão sofrendo ataques, sedes sindicais, organizações populares, centros estudantis.
Isso é o traço claro do fascismo seu louco.
E a meta deles é destruir a mobilização popular e promover a intolerância.
Querem nos fazer engolir a bosta da sua moral e bons costumes.

O fascismo não está restrito no âmbito político, com leis conservadoras e que prejudicam as liberdades.
Esses ataques se propagam nas ruas, diariamente, violentamente. E eles têm aval do Estado conservador, através de um sistema que só julga e criminaliza o nosso povo.
Propagam ódio contra imigrantes, contra homossexuais, contra os negros, contra nordestinos, contra movimentos de esquerda com ou sem partido político.

O fascismo tá na mídia burguesa, que tenta manipular o povo, criminalizando os movimentos, tentando fingir uma imparcialidade.

Por isso precisamos nos organizar e nos mobilizar galera!
Precisamos unir todos e todas que já estão se articulando diariamente e somar com quem ainda não entendeu a importância de identificar o mal que é o fascismo.

Só com uma mobilização em unidade poderemos organizar frentes populares horizontais, autônomas, anti-capitalistas e anti- hierárquicas, que visam a conquista de um mundo melhor.
O momento requer uma frente única antifascista que demonstre força e organização.
Assim como os antifascistas se uniram no passado para derrotar o integralismo, um fascismo disfarçado, chegou o momento de voltarmos pras ruas em peso. Nossa luta não tem fronteiras.

Não queremos promover a violência, mas sim marcar a nossa posição firme contra qualquer ataque às liberdades.
Vou recitar um poema, se liga.
Sem dirigentes, sem líderes, sem partido, nem rascistas, nem patriarcado, nem pátria ou patrão!
Contra toda forma de opressão!
Seja o estado de direita ou de esquerda, todo estado é fascista!
e Fascistas não passarão!

Só lembrando……
Não há espaço para oportunistas e nem para palanque partidário.
A marcha não é desfile partidário nesse ano eleitoral.
Substituam as bandeiras de seus partidos, pelas as das ideologias que os formam.
Recomendo bom senso e coerência aos militantes de partidos de esquerda ou a coxinhas enrustidos.
Dia 30 será gigante!
Será nacional!
Esperamos a contribuição de vocês para isto!
A marcha é organizada de maneira horizontal e popular
Contra Toda Forma De Fascismo, De Direita e Da dita esquerda!
Essa democracia dentro da instituição burguesa não nos representa!
Nunca saímos das ruas, contra os ataques dos governos entreguistas e contra os golpistas da burguesia.
Nos de baixo sempre estivemos no front, dando o sangue pela libertação do nosso povo e não vai ser agora que isso mudará.
Nossas Lutas Não Cabem Nas Urnas!
Criar um Poder Popular!
Estarei nas ruas sábado, linda e maravilhosa!
Até lá!
Muita tesão e autogestão!

A palavra anarquia – Errico Malatesta – Anarquismo não é bagunça!

Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente “sem governo”, isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituída. Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tornasse a meta de um movimento, que hoje é um dos fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra “anarquia” foi usada universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada nesse sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade. Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e não filológica.

A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vida social. O homem, como todos os seres vivos, se adapta às condições em que vive e transmite, através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão. Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a essas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros. Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas pernas não poderá caminhar, ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tirá-las inimigo. Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa ausência de governo, também signifique ausência de ordem.

Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra “república” (governo de muitos) era usada exatamente como “anarquia”, implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados na linguagem popular de quase todos os países. Quando essa opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra “anarquia”, justamente por significar “sem governo” será o mesmo que dizer “ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total”. Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o nome, por ser esse mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa interpretação. O erro vem do que foi dito antes e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas encontram para difundir suas ideias não depende do nome que deram a si mesmos. Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as pessoas têm sobre as funções do governo, ou do “Estado”.

– Errico Malatesta 1907.